Uma análise sobre os arquétipos que dominam o nosso subconsciente e explicam o fenômeno das séries do Leste-asiático.
Desde pequenas, as meninas são apresentadas a produções em que a mulher é frágil pelo protagonismo, e as animações da Disney são responsáveis por esse fenômeno, principalmente na geração 40+, que compõe uma grande fatia de fãs das produções do Leste Asiático.
A intenção desta reflexão não é desmerecer esse tipo de série e / ou para quem gosta desse estilo narrativo, mas sinalizar que, dentro do universo das criações asiáticas, existe muito mais do que um romance “clichê e previsível” e que sim, existe todo um fator da nossa psique que o torna tão popular e de fácil aceitação e popularidade e os produtores sabem muito bem isso.
Essa popularidade pode ser explicada pelo uso dos arquétipos nos dramas. Os arquétipos são modelos universais de personagens e situações que residem no nosso inconsciente coletivo. O “CEO frio e poderoso” nada mais é do que uma versão moderna do arquétipo do Rei ou do Cavaleiro, enquanto a “protagonista ingênua e batalhadora” ecoa a figura da Cinderela. Quando assistimos a essas tramas, nosso cérebro reconhece esses padrões instantaneamente, o que gera uma sensação de conforto e familiaridade, facilitando a conexão emocional com a história.
Dito isso, é fácil entender que esse tipo de romance está gravado no nosso subconsciente de maneira tão forte que se torna o desejo romântico de muitas mulheres, o que torna essas produções tão populares. Basta trocar o CEO por um príncipe — ou até por um imperador, como nos dramas históricos — e a trama está pronta. O que faz uma produção ser mais popular que outra é o “tempero”: um elenco mais cativante ou uma pitada de comédia. Muitas vezes, a “salada” melhora quando acrescentamos um toque de Shakespeare, principalmente Romeu e Julieta, que é o grande clássico dos clássicos.
Por outro lado, é justamente essa previsibilidade que afasta quem se cansou dessa mesmice. É comum lermos relatos de pessoas que reclamam que nenhuma série parece mais interessante. Isso demonstra que o subgenero acaba entediando parte do público dos próprios dramas por vários motivos, que vão desde a falta de conhecimento de que a indústria oferece outras opções narrativas até a simples falta de interesse em assistir a outro tipo de história.
Esse círculo narrativo, da mesma maneira que atrai, também afasta quem interpreta negativamente o modo como os dramas são apresentados ao mundo. Cria-se aqui uma armadilha de percepção: de um lado, parte do público exalta as produções asiáticas apenas por uma suposta “pureza”, usando a ausência de cenas de sexo para desmerecer as produções brasileiras. Por outro lado, essa mesma narrativa acaba reforçando um preconceito cultural externo, fazendo com que pessoas “fora da bolha” rotulem o conteúdo asiático como infantil ou bobo.
É um erro gigante de ambos os lados. Ao limitar o Leste Asiático ao rótulo de “conteúdo para família”, ignora-se a profundidade de gêneros como o suspense, o thriller policial e o terror, que podem ser tão ou mais violentos que qualquer produção ocidental. Esse julgamento precipitado — seja para elogiar a “inocência” ou para criticar a “mesmice” — acaba por desmerecer a complexidade e a capacidade de toda uma indústria de entretenimento que vai muito além do óbvio.
Por isso, quando ouvimos comentários do tipo “Ah, esses doramas de romance são todos iguais e chatos”, precisamos admitir que, olhando para as histórias de CEOs, a maioria realmente segue a “receitinha de bolo”. Sob essa perspectiva, os críticos têm razão: esse tipo específico de história é previsível e, na maioria das vezes, podemos prever exatamente o que vai acontecer ao longo dos capítulos. O desafio é olhar além da receita e descobrir o banquete que o Leste Asiático realmente oferece sem perder a oportunidade de conhecer outras histórias.






