
É difícil falar sobre Kokuho – O Preço da Tradição sem mergulhar no universo do Kabuki, forma clássica de teatro japonês conhecida por seu drama estilizado e pela elaborada maquiagem de seus atores. O filme acompanha cinco décadas da vida de Kikuo, filho de um yakuza que descobre a paixão pela interpretação, e Shunsuke, herdeiro legítimo de uma tradicional linhagem da Casa de Tanba-ya.
Um detalhe fundamental é que, tradicionalmente, o elenco do Kabuki é composto apenas por homens, inclusive nos papéis femininos (onnagata). Os dois protagonistas crescem juntos, aprendendo desde cedo a dedicação total a essa arte que abrange teatro, dança e, principalmente, uma extrema leveza no palco.
Toda essa beleza cênica não seria possível sem a interpretação potente de Ken Watanabe — um dos melhores atores do cinema japonês — no papel de Hanjiro Hanai. Ele vive o mestre exigente e severo dos jovens que se tornam homens dedicados a essa tradição milenar.
No Kabuki, nada é apressado. O filme respeita esse tempo: a perfeição reside nos movimentos precisos e coordenados, na marcha lenta dos personagens e na velocidade aplicada apenas quando necessária. Tudo isso é acompanhado pela graça dos músicos e por uma pirotecnia contida, fiel ao período em que a história se inicia.
Nota: Kokuho concorre ao Oscar de Melhor Maquiagem — um reconhecimento merecidíssimo — mas acredito que a obra merecia indicações também em Figurino e Fotografia.

Com três horas de duração, o filme oferece tempo suficiente para nos apaixonarmos pelo Kabuki e pelos protagonistas. Os dois amigos representam extremos da vida rigorosa de ensaios e criatividade, onde a existência se mistura à arte de tal forma que todo o resto se torna descartável. A arte vira o objetivo primordial para a sobrevivência, quase como um refúgio da realidade.
Acredito que este “filme de arte” tenha um efeito emocional mais profundo para quem conhece ou ama o Kabuki, funcionando como um retrato cultural maravilhoso de um país com histórias milenares.
Todavia, embora eu aprecie a beleza do roteiro de Satoko Okudera — que nos conduz pelos bastidores em uma jornada de busca por identidade — sinto que as três horas poderiam ter momentos de maior agilidade. Compreendo que a proposta seja seguir o ritmo do próprio teatro, onde a vida não precisa de pressa, mas o drama pessoal e as rivalidades intensas em busca da perfeição talvez pedissem um fôlego diferente em certos pontos. É, sem dúvida, um espelho histórico e artístico que merece ser apreciado pelo público ocidental.

Sobre:
| Candidato oficial do Japão ao Oscar de Melhor Filme Internacional e finalista na categoria de Melhor Maquiagem, Kokuho – O Preço da Perfeição chega aos cinemas brasileiros no próximo dia 5 de março, distribuído por uma parceria entre a SATO Company e a Imovision. O filme ganha prés a partir desta quinta-feira (26/02) em São Paulo, Belo Horizonte, Brasília, Caruaru, Limeira e Manaus.
Ambientado nos bastidores do teatro kabuki, o longa vem quebrando recordes: depois de se tornar a maior bilheteria de um filme japonês em live-action, acaba de entrar no Top 10 geral de produções mais assistidas da história do país — lista que reúne de animes de Hayao Miyazaki e fenômenos como Demon Slayer e sucessos estrangeiros como Titanic e Frozen. Um feito e tanto para uma obra baseada numa arte de mais de quatro séculos, mas sempre marcada pela vontade de subverter. |
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| A HISTÓRIA DO KABUKI O kabuki surge por volta de 1603, quando a sacerdotisa Izumo no Okuni passou a apresentar, em Kyoto, então capital do Japão, performances que misturavam dança, teatralidade e provocação. O sucesso foi imediato — e também incômodo. As atrizes se tornaram celebridades e passaram a ser “disputadas” pelo público masculino. O xogunato Tokugawa, que comandava o país, começou a associar esse tipo de espetáculo como espaço de agitação social e, em 1629, as mulheres foram proibidas de atuar. Jovens rapazes, com aparências e vozes mais delicadas, assumiram os papéis femininos, mas acabaram vetados pelo mesmo motivo. Surgiu então a tradição de companhias exclusivamente formadas por homens adultos, o que gerou a figura do onnagata, o ator especializado em interpretar mulheres de maneira rigorosa e estilizada.Entre 1673 e 1735, na era Genroku, o kabuki aumentou sua popularidade e chegou a sua maturidade estética: foi quando as estruturas dramáticas da peças, os tipos de personagens e as poses mie — momentos em que o ator “congela” para cristalizar sua emoção para a plateia — foram consolidadas. Nesta época ainda se convencionou usar a maquiagem “kumadori”, com traços marcados que parecem máscaras pintadas no próprio rosto. Em 1868, com o fim do xogunato, a ascensão de um novo imperador e a abertura do Japão ao Ocidente, atores e dramaturgos iniciaram um movimento para serem reconhecidos entre as elites. Em 1887, depois de assistir a uma apresentação, o imperador Meiji, elevou o status do kabuki no cenário cultural japonês. Hoje, além de ser a mais popular das artes dramáticas tradicionais do país, o estilo passou a ser considerado Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.Kokuho – O Preço da Perfeição registra como esta arte que nasceu da ruptura passa a exigir controle, rigidez e disciplina absoluta – tradição – e o que isso custa para o artista. A complexidade desse retrato tem sido bastante reconhecida: o longa lidera as indicações ao Prêmio da Academia de Cinema do Japão, o principal do país, com 17 nomeações, entre elas Filme, Direção e Roteiro. Além disso, oito integrantes do elenco estão entre os finalistas nas cinco categorias de atuação. Os brasileiros vão poder conferir o filme a partir da próxima quinta-feira, 5 de março. |
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| O QUE SIGNIFICA “KABUKI”? O termo “kabuki” deriva do verbo japonês “kabuku”, que significa “inclinar-se” ou “desviar-se” — no sentido de agir de forma excêntrica, fora das convenções. No início do século XVII, os chamados “kabukimono” eram jovens, em geral ligados à classe samurai, conhecidos por trajes extravagantes, penteados incomuns e comportamento desafiador. Circulavam pelas cidades rompendo códigos sociais rígidos — e é desse espírito de desvio que o teatro herdou seu nome.Mais tarde, a palavra passou a ser grafada com três ideogramas que enfatizam seu caráter artístico: 歌 (ka), canto; 舞 (bu), dança; e 伎 (ki), técnica ou habilidade. Consolidou-se assim a ideia de “arte do canto e da dança”, mas a origem do termo preserva algo essencial: o kabuki nasce do gesto de se inclinar para fora da norma — e de transformar essa inclinação em forma. |
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| SINOPSE Nagasaki, 1964. Após a morte de seu pai, líder de uma gangue da yakuza, o jovem Kikuo, de 14 anos, é acolhido por um famoso ator de kabuki. Ao lado de Shunsuke, o único filho do ator, ele decide se dedicar a essa tradicional forma de teatro. Ao longo das décadas, os dois crescem e evoluem juntos, da escola de atuação aos palcos mais grandiosos. Em meio a escândalos e glórias, irmandade e traições, um deles se tornará o maior mestre japonês da arte do kabuki.O DIRETOR Lee Sang-il (李相日, Ri San’iru) é um cineasta japonês de origem coreana. Ganhou projeção internacional com Hula Girls (2006), vencedor dos prêmios de Melhor Direção e Melhor Roteiro no Japanese Academy Awards, além de ter sido eleito o melhor filme japonês do ano pela Kinema Junpo. Seu longa Os Imperdoáveis foi exibido na seção Special Presentations do Festival de Toronto em 2013. Em 2025, Kokuho consolidou-se como um dos filmes japoneses de maior bilheteria de todos os tempos.FICHA TÉCNICA Direção: Lee Sang-il Roteiro: Satoko Okudera Produção: Shinzo Matsuhashi, Chieko Murata Direção de Fotografia: Sofian El Fani Direção de Arte: Yohei Taneda Figurino: Kumiko Ogawa Montagem: Tsuyoshi Imai Som: Mitsugu Shiratori Música: Marihiko Hara Gênero: Drama País: Japão Ano: 2025 Duração: 174 minutos ELENCO Ryô Yoshizawa – Kikuo Tachibana / Hanai Toichiro Sōya Kurokawa – Kikuo (jovem) Ryusei Yokohama – Shunsuke Ōgaki / Hanai Han’ya Keitatsu Koshiyama – Shunsuke (jovem) Ken Watanabe – Hanai Hanjiro II Mitsuki Takahata – Harue Fukuda Shinobu Terajima – Sachiko Ōgaki Nana Mori – Akiko Ai Mikami – Fujikoma Kumi Takiuchi – Ayano Masatoshi Nagase – Gongorō Tachibana Emma Miyazawa – Matsu Tachibana Takahiro Miura – Takeno Kyusaku Shimada – Umeki Tateto Serizawa – Genkichi Nakamura Ganjirō IV – pai de Akiko Min Tanaka – Onogawa Mangiku |
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| SOBRE A SATO COMPANY Fundada em 1985, a SATO Company é pioneira e referência na distribuição de animes e tokusatsu no Brasil. Seu portfólio inclui títulos icônicos como Akira, Ghost in the Shell, Ultraman, Jaspion e Jiraiya. A empresa atua nas áreas de produção, distribuição para cinema, televisão e plataformas digitais, além de agregação de conteúdo e licenciamento.A SATO foi responsável por trazer ao Brasil os vencedores do Oscar Godzilla Minus One e O Menino e a Garça e, em 2025, realizou o Ghibli Fest, celebrando os 40 anos da distribuidora e do Studio Ghibli. |
| SOBRE A IMOVISION Presente no Brasil há 35 anos, a Imovision vem se consolidando como uma das maiores incentivadoras do melhor cinema mundial na América latina, tendo lançado mais de 500 filmes no Brasil.Criada pelo empresário Jean Thomas Bernardini, a distribuidora tem em seu catálogo, realizações de consagrados diretores estrangeiros e brasileiros, e filmes premiados nos mais prestigiados festivais de cinema do mundo, como Cannes, Veneza e Berlim.Mantendo seu foco em títulos de qualidade, a Imovision fortificou o cinema francês no Brasil e foi a responsável por introduzir cinematografias raras e movimentos internacionais expressivos no país, como o Movimento Dogma 95 e o Cinema Iraniano. |







