Dos traumas da guerra ao terror dos kaijus, Godzilla Minus Zero retoma o significado original do monstro e amplia a dimensão humana de Minus One, entregando uma sequência ainda mais brutal, emocionante e espetacular.
Considerado um dos ícones mais importantes da história do cinema mundial, Godzilla completa, em 3 de novembro deste ano, 72 anos de sua estreia comercial nos cinemas japoneses. Não é à toa que a data ficou conhecida como Godzilla Day. Ao longo dessas sete décadas, esse kaiju gigantesco passou por inúmeras interpretações e versões, assumindo diferentes personalidades e significados, mas sem perder seu lugar como um dos monstros mais emblemáticos da sétima arte.
O primeiro filme, lançado em 1954, foi um sucesso de público e provocou um forte impacto emocional. Sua recepção crítica, entretanto, não foi unânime. Houve quem considerasse grotesca a maneira como a produção abordava os traumas da Segunda Guerra Mundial e o medo nuclear, acusando-a de explorar uma ferida ainda aberta na sociedade japonesa. Entre os acontecimentos que influenciaram a criação do longa estava o incidente do barco pesqueiro Daigo Fukuryū Maru, contaminado pela precipitação radioativa de um teste nuclear americano realizado no atol de Bikini, em março daquele mesmo ano.
O elenco também merece destaque: Akira Takarada interpretou Hideto Ogata, Momoko Kōchi deu vida a Emiko Yamane, Akihiko Hirata interpretou o Dr. Daisuke Serizawa e Takashi Shimura viveu o Dr. Kyohei Yamane. Já o próprio Godzilla ganhou vida nas telas por meio do trabalho de Haruo Nakajima, dentro da fantasia do monstro.
Para uma população que ainda tinha muito vivas as lembranças de Hiroshima, Nagasaki e dos bombardeios da guerra, a história de uma criatura gigantesca despertada pelos testes atômicos tinha um significado muito mais profundo. Muitos espectadores saíram das sessões emocionados ou profundamente abalados. Para muitos, o filme foi muito mais do que uma história de monstros: foi uma forma de reviver e expressar todo o medo e o sofrimento deixados pelas bombas atômicas.
A produção também recebeu reconhecimento da indústria cinematográfica japonesa, conquistando o prêmio de melhores efeitos especiais da Associação de Produtores de Cinema do Japão e uma indicação a melhor filme, categoria em que acabou perdendo para Os Sete Samurais.
Em 1956, Godzilla ganhou sua versão americana, Godzilla, King of the Monsters!, bastante modificada em relação ao original, com cenas adicionais protagonizadas por Raymond Burr, que interpretou o jornalista americano Steve Martin, e cortes em parte das referências políticas e nucleares. A adaptação alcançou sucesso comercial, embora também tenha recebido críticas por suas escolhas e pelo resultado final. Foi, entretanto, fundamental para levar Godzilla ao público internacional e transformar o monstro em um verdadeiro ícone da cultura pop.
O filme deu origem a uma das franquias mais longevas da história do cinema, reconhecida pelo Guinness World Records, e estabeleceu as bases para o gênero japonês dos filmes de monstros gigantes. Seu tema nuclear e a metáfora do trauma de guerra continuam influentes até hoje, mesmo com as adaptações do MonsterVerse, consideradas por alguns fãs uma verdadeira profanação ao personagem.
Mas deixemos esse tópico de lado. Em 2023, tivemos Godzilla Minus One, que veio resgatar justamente o terror presente no filme original e se tornou um sucesso estrondoso, tanto no Japão quanto no restante do mundo. Com um roteiro invejável, deixou de lado aquela eterna rinha de CGI entre monstros gigantes, tão característica das versões americanas, para voltar a algo muito mais interessante: os traumas da guerra, a superação individual e o resgate da dignidade de um país destruído.
E aqui está uma das grandes diferenças: Godzilla não é um fantoche de MMA gigante, criado apenas para distribuir pancadas em outros monstros. Ele é o próprio terror. O foco está nas pessoas, no desespero, nas consequências e na luta para continuar vivendo depois de uma tragédia. O final ainda deixou pistas de que poderíamos ter uma continuação. E ela realmente aconteceu!


Chegamos a Godzilla Minus Zero e, com ele, veio a grande pergunta: para qual lado a flecha do roteiro apontaria? Teríamos mais um filme pipoca de monstros brigando ou a volta à temática nua e crua dos traumas da guerra? E, pasmem, como diz a lenda, grandes histórias muitas vezes ganham continuações ainda melhores. Seguindo essa tendência, Minus Zero não apenas elevou o nível dos efeitos especiais, como também conseguiu ampliar sua história, aprofundar a superação individual de seus protagonistas e escancarar, de maneira ainda mais brutal, o terror que o original de 1954 apenas pincelava. Desta vez, o filme teve coragem de jogar tudo na nossa cara.
E é justamente por isso que, ao lado dessa obra de arte, o MonsterVerse, apesar de divertido, não passa de uma pataquada infantil. São propostas completamente diferentes, mas, depois de assistir a uma produção que consegue devolver a Godzilla seu verdadeiro significado, fica difícil não fazer essa comparação.
Minus Zero é uma obra de arte. Tenho apenas uma pequena ressalva fica por conta de uma pequena quebra de verossimilhança física em uma determinada sequência, na qual a dimensão dos ataques e suas consequências parecem não receber o mesmo tratamento. É um detalhe técnico, daqueles que talvez só incomodem quem presta atenção demais, mas que não chega nem perto de comprometer o espetáculo, mas não posso entrar em detalhes por conta do embargo. Ainda assim, posso afirmar que tudo o que se espera de um bom thriller psicológico e de terror está presente.
Uma das mudanças mais interessantes da sequência está na própria perspectiva da narrativa. Se em Minus One acompanhamos Kōichi Shikishima (Ryunosuke Kamiki) em sua jornada para superar a culpa e encontrar um motivo para continuar vivendo, ao lado de Noriko Ōishi (Minami Hamabe) e da pequena Akiko (Sae Nagatani), agora a história amplia seu olhar para a família que ele construiu. Noriko, que retorna na sequência, e Akiko representam justamente aquilo que Shikishima tem a perder. A questão deixa de ser apenas a reconstrução de um indivíduo e passa a envolver a responsabilidade de proteger aquilo que foi conquistado, os vínculos criados e a possibilidade de finalmente ter um lar.
Entre os rostos conhecidos que retornam estão também Sumiko Ōta (Sakura Ando), a vizinha de Shikishima; Kenji Noda (Hidetaka Yoshioka), Shiro Mizushima (Yuki Yamada) e Seiji Akitsu (Kuranosuke Sasaki), companheiros da missão anterior; além de Tatsuo Hotta (Miou Tanaka), que também volta à história. Outro personagem importante é Sōsaku Tachibana (Munetaka Aoki), cuja participação se conecta aos acontecimentos do primeiro filme.
A sequência ainda apresenta novos personagens, como Kanji Murakami (Min Tanaka), um biólogo marcado psicologicamente pela guerra; Makoto Aoyama (Masami Nagasawa), especialista em previsão do tempo que passa a integrar o Departamento de Resposta a Desastres; o Dr. Ogata (Jun Kunimura) e Akira Hagiwara (Ko Maehara), assistente de Murakami.



Em entrevista à revista Empire, Takashi Yamazaki explicou que a sequência pretende explorar justamente essa nova dimensão. A família Shikishima e o próprio Japão começam a se recuperar gradualmente, tentando deixar para trás a devastação e se aproximar de uma vida normal. É o momento em que todos começam a acreditar na possibilidade de um recomeço, mas também descobrem o quanto têm a perder quando uma nova ameaça surge.
Tudo isso é elevado à décima potência, tanto nos efeitos especiais quanto na maneira como essas feras gigantescas afetam a população. As consequências são mostradas de forma muito mais próxima da realidade do que da fantasia. Há o trauma coletivo, o desespero de quem tenta encontrar uma solução para o caos, a população tentando sobreviver e as marcas psicológicas deixadas por acontecimentos dessa proporção. É como se esses kaijus realmente existissem e estivéssemos acompanhando as consequências de sua presença no mundo real.
E a cereja do bolo são as cenas aéreas, que fariam George Lucas aplaudir de pé! Os ângulos são maravilhosos, a fotografia, com sua coloração de aspecto antigo, dá ao filme um charme impressionante, e a trilha sonora traz novas composições sem deixar de lado o tema principal, que já faz parte da identidade do personagem. As interpretações também são magníficas, com um elenco que consegue sustentar o peso emocional de uma história dessa dimensão.
Outro detalhe interessante é que Yamazaki confirmou recentemente à revista Empire que duas grandes sequências dirigidas por James Cameron serviram de inspiração para seu novo filme: Aliens: O Resgate (1986) e O Exterminador do Futuro 2: O Julgamento Final (1991). E faz todo sentido! Em vez de simplesmente repetir a fórmula do primeiro longa, Minus Zero procura ampliar a história, aprofundando a vida, o crescimento e os traumas da família de sobreviventes. São pessoas que tentam reconstruir suas vidas em um Japão pós-guerra, acreditando que finalmente poderão seguir em frente, até que uma nova ameaça coloca tudo em risco.
E isso foi simplesmente incrível! Mais um capítulo brutal e sensacional nessa trajetória, com uma história que consegue equilibrar o espetáculo dos efeitos visuais com o terror, o drama e a dimensão humana de seus personagens. E, por fim, temos uma cena com potencial para chocar o mundo, assim como o filme original fez em sua época.
Como dizem por aí: Absolute Cinema!





